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Se o carro está dirigindo, quem estará pensando?

Veículos autônomos

Confortavelmente burro: se o carro está dirigindo, alguém vai estar pensando?

 Se a narrativa dominante se sustenta e carros autônomos começam a colonizar nossas estradas, não haverá mais nenhum cálculo mental de tempo, distância e velocidade. Nada de tentar adivinhar o que aquele idiota na faixa da esquerda vai fazer ao invés de virar à esquerda. Nem mesmo resolver se é melhor ranger os dentes, buzinar ou dar uma dedada. O que não parece nem um pouco ruim. Mas será que ligar um veículo autônomo vai desligar uma mente de direção? Será que abrir mão de controle e responsabilidade nos tornará mais burros?

Inteligência tem significados diferentes para diferentes cientistas. Não é apenas uma questão de se carros que dirigem sozinhos vão nos deixar mais burros, mas quais células cerebrais estão em risco de extinção. Jonathan Schooler, um professor de ciências psicológicas e cerebrais na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, está interessado na ciência cognitiva de como o cérebro humano funciona.

“Certamente é verdade que, se as pessoas levam vidas estimulantes e complexas, isso influencia o cérebro e influencia o desenvolvimento mental”, explica ele. “Existem pesquisas sobre a complexidade das ocupações, pessoas que têm empregos mais complexos com demandas mais complexas, e como isso afeta seu pensamento e também como afeta seu envelhecimento. Em geral, empregos mais complexos levam a uma flexibilidade cognitiva maior”. Isso também se estende a tarefas do dia a dia. Portanto, veículos autônomos podem nos permitir mais tempo para contemplar o estado do universo, o que melhoraria a agudeza da nossa mente humana muito mais do que se ficarmos ruminando sobre a injustiça da última eliminação no BBB. Para provavelmente não.

John D. Lee, engenheiro e Professor de Qualidade Elétrica Emerson e Produtividade na Universidade de Wisconsin, Madison, também vê veículos autônomos como uma caixa de surpresas para nossas mentes. “O paradoxo da autonomia é que nós achamos que reduz os requisitos de habilidades quando, muitas vezes, aumenta”, diz ele. “Se não for autonomia total, algumas vezes você precisara interagir. Nós precisamos nos manter vigilantes e prontos para interceder quando for necessário. Automatizar tornas as coisas fáceis ainda mais fáceis e as coisas difíceis ainda mais difíceis”.

Veículos completamente autônomos vão quase que com certeza nos deixar cognitivamente mais preguiçosos quanto a dirigir, e provavelmente irão efetivamente nos tirar as habilidades, ao longo do tempo. E aí se houver uma emergência, nós seremos incapazes de nos salvar. “Habilidades que não usamos se atrofiam”, conclui Lee. “A parte perigosa é que vamos perder habilidades que precisamos de tempos em tempos para dirigir com segurança”.

Lee sugere que o treinamento de motoristas precisará ser adaptado para semi-autônomo. E essas tecnologias precisam ser projetadas para nos manter aguçados – nem sempre dirigir para nós, mas nos incitar a dirigir melhor e talvez até oferece críticas construtivas sobre nossas habilidades. Porque, mesmo que carros totalmente autônomos promovam complacência, os passos entre aqui e acolá, se lineares, “podem nos tornar bem menos preguiçosos do que somos hoje”, diz Lee. Em outras palavras, ainda há tempo para desviarmos de um futuro verdadeiramente estúpido.

ESTRADA PARA A ZONA DE PERIGO

Nem toda direção é igual. A teoria Yerkes-Dodson descreve o relacionamento entre excitação psicológica e performance. Em níveis baixos de excitação, como deslocamentos diários, dirigir é uma tarefa de hábito que demanda performance mínima. Quando dirigindo em alta velocidade ou apostando corrida, o nível de excitação é alto e a performance se eleva conforme a tarefa vai se tornando mais complexa – até que atinge um pico. É nessa altura que você se sente “na zona” e estático, visto que este pico se auto-reforça. Mas é difícil de manter. Excitação demais pode te empurrar para além do pico de Yerkes-Dodson e sobrecarregar suas habilidades. Mas provavelmente não é isso que você vai estar pensando quando seu carro bater na parede.

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